cabelo e
deixou-o ali, à sombra da sua fortaleza, com os seus rios
a correr embaixo. Adormecera antes ainda de ela sair do
aposento.
Quando voltou à muralha inferior, Sor Brynden Tully
encontrava-se na escada da água com as botas molhadas,
conversando com o capitão dos guardas de Correrrio. Foi
imediatamente ao seu encontro.
- Ele está...?
- Morrendo - disse ela. - Como temíamos.
O rosto escarpado do tio mostrou claramente a dor que
sentia. Fez correr os dedos pelos espessos cabelos
grisalhos.
- Vai me receber?
Ela confirmou com a cabeça.
- Diz que está muito doente para discutir.
Brynden Peixe Negro soltou um risinho.
- Sou um soldado velho demais para acreditar nisso.
Hoster há de ralhar comigo a respeito da jovem
Redwyne até quando acendermos a sua pira funerária,
malditos sejam os seus ossos.
Catelyn sorriu, sabendo que aquilo era verdade.
- Não vejo Robb.
- Acho que foi com Greyjoy até o salão.
Theon Greyjoy estava sentado num banco no Salão
Grande de Correrrio, saboreando um corno de cerveja e
oferecendo à guarnição do pai de Catelyn um relato do
massacre no Bosque dos Murmúrios.
- Alguns tentaram fugir, mas nós tínhamos fechado o
vale pelos dois lados, e saltamos da escuridão com
espadas e lanças. Os Lannister deviam ter pensado que
eram os Outros quem os atacava quando aquele lobo do
Robb surgiu entre eles. Vi-o arrancar o braço de um
homem, e os cavalos deles enlouqueceram com o seu
cheiro. Não sei dizer quantos homens foram atirados...
- Theon - interrompeu Catelyn -, onde posso encontrar
meu filho?
- Lorde Robb foi visitar o bosque sagrado, senhora.
Era o que Ned teria feito. Tenho de me lembrar que ele
é tanto filho do seu pai como meu. Ah, deuses, Ned...
Encontrou Robb sob a verde abóbada de folhas, rodeado
de altas sequoias e grandes e velhos olmos, ajoelhado
perante a árvore-coração, um esguio represeiro com uma
cara que era mais triste que feroz. Tinha a espada à sua
frente, com a ponta espetada na terra, e as mãos
enluvadas a agarravam pelo punho. Ao seu redor,
ajoelhavam-se também: Grande-Jon Umber, Rickard
Karstark, Maege Mormont, Galbart Glover e outros. Até
Tytos Blackwood se encontrava entre eles, com o grande
manto de corvo aberto atrás de si. Estes são os que
fazem culto aos velhos deuses, percebeu Catelyn.
Perguntou-se que deuses ela cultuava nos dias que
corriam, e não encontrou resposta.
Não podia perturbá-los nas suas preces. Os deuses têm de
receber o que lhes é devido... mesmo deuses cruéis que
quiseram lhe roubar Ned e também o senhor seu pai. Por
isso, Catelyn esperou. O vento do rio soprava através dos
ramos mais altos, e olhou para a Torre da Roda, à sua
direita, com hera subindo pela parede. Enquanto
esperava, foi inundada por todas as memórias, O pai lhe
ensinara a montar entre aquelas árvores, e aquele era o
olmo de onde Edmure caíra quando quebrara o braço, e
mais adiante, sob aquele caramanchão, Lysa e ela
tinham brincado aos beijos com Petyr.
Havia anos que não pensava naquilo. Como eram todos
novos então... ela não seria mais velha que Sansa, Lysa,
mais nova que Arya, e Petyr, ainda mais novo, mas
ávido. As meninas tinham-no trocado entre elas, por
vezes sérias, por vezes aos risinhos. A recordação era tão
viva que quase conseguia sentir os dedos suados dele nos
seus ombros e saborear a menta de seu hálito. Havia
sempre menta crescendo no bosque sagrado, e Petyr
gostava de mascá-la. Fora um rapazinho tão ousado,
sempre metido em confusões. "Ele tentou enfiar a língua
na minha boca", confessara Catelyn à irmã mais tarde,
quando ficaram a sós. "Fez o mesmo comigo", segredara
Lysa, tímida e sem fôlego. "Eu gostei."
Robb pôs-se lentamente em pé e embainhou a espada, e
Catelyn perguntou-se se o filho teria alguma vez beijado
uma moça no bosque sagrado. Certamente que sim. Vira
Jeyne Poole lançar--lhe olhares úmidos, e algumas das
criadas, mesmo as que já tinham feito dezoito anos... Ele
participara de batalhas e matara homens com uma
espada, com certeza já fora beijado. Havia lágrimas nos
olhos dela. Limpou-as, zangada.
- Mãe - chamou Robb quando a viu ali em pé. - Temos de
convocar um conselho. Há coisas para decidir.
- Seu avô gostaria de vê-lo - ela disse. - Robb, ele está
muito doente.
- Sor Edmure me disse. Lamento, mãe... por Lorde
Hoster e pela senhora. Mas primeiro temos de nos reunir.
Recebemos notícias do sul. Renly Baratheon reivindicou
o trono do irmão.
- Renly? - ela disse, chocada. - Pensei que seria
certamente Lorde Stannis...
- Todos nós pensávamos o mesmo, senhora - disse
Galbart Glover,
O conselho de guerra reuniu-se no Grande Salão, em
quatro longas mesas de montar dispostas num quadrado
quebrado. Lorde Hoster estava muito fraco para
participar e dormia em sua varanda, sonhando com o sol
nos rios de sua juventude. Edmure ocupava o cadeirão
dos Tully, com Brynden Peixe Negro a seu lado e os
vassalos do pai dispostos à esquerda e à direita e ao
longo das mesas laterais. A notícia da vitória em
Correrrio chegara aos senhores fugitivos do Tridente,
atraindo